Nem só de Covid-19 adoecem as populações. O mundo, no entanto, encontra-se diante de uma crise sanitária que parece acabar deixando em segundo plano outras necessidades de saúde – algumas delas, inclusive, se não atendidas, podendo mesmo agravar um possível quadro da Covid. Acomodar rotina e emergência, no entanto, vem sendo um desafio para os sistemas de saúde, mesmo os mais estruturados. Para o SUS brasileiro, fragilizado, em especial, nos últimos anos, por medidas como a Emenda Constitucional 95/2016, que congelou os gastos governamentais com saúde por vinte anos, o desafio é ainda maior.

Levantamento da Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgado em 1º/6/2020, em 155 países, sobre doenças não transmissíveis, apontou que mais da metade ​​interrompeu parcial ou completamente os serviços de tratamento da hipertensão; metade o de diabetes e complicações relacionadas; 42%, o de câncer e 31% o atendimento a emergências cardiovasculares. No Brasil, não é diferente. Entre outros dados, 50 mil brasileiros com câncer estão sem acompanhamento, como mostrou reportagem do jornal O Estado de S. Paulo.

Para analisar esse quadro, o blog do CEE-Fiocruz entrevistou o ex-ministro da Saúde José Gomes Temporão, membro titular da Academia Brasileira de Medicina, e o ex-diretor do Instituto Nacional do Câncer e do Centro Colaborador da OMS para o Controle do Tabaco Luiz Antonio Santini, pesquisadores associados do Centro. Eles coordenam a pesquisa O Futuro das Tecnologias de Atenção ao Câncer, conduzida pelo CEE, voltada à percepção de médicos especialistas em Oncologia a respeito da possibilidade de acesso da população a tecnologias de diagnóstico e tratamento do câncer nos próximos trinta anos, um tema aparentemente distante do estado emergencial em que o país se encontra, mas fundamental para que o sistema de saúde se prepare e se fortaleça.

“O que estamos vivendo não cabe nem na medicina nem na saúde pública. Tem impacto em todas as dimensões da vida, política, econômica, social ambiental”, analisa Temporão. “Essa pandemia é, realmente, o maior evento sanitário em mais de um século”, destaca Santini, lembrando que só viemos a ter sistemas de saúde organizados no mundo a partir da Segunda Guerra Mundial. “Portanto, até hoje, nenhum sistema de saúde que conhecemos sofreu um impacto da dimensão do provocado por essa pandemia”.

Os pesquisadores analisam o duplo papel da Covid-19, que, ao mesmo tempo em que vem ocupando toda a agenda da saúde, acabou por trazer à tona a relevância dos sistemas universais, dos quais o SUS brasileiro é único na garantia de saúde pública e gratuita como direito de todos, em um país de proporções continentais. A pandemia evidenciou, ainda, a pertinência de a atenção e o cuidado à saúde estarem fora do mercado, bem como a importância de um Estado presente, para regular, fiscalizar, fazer vigilância e coordenar ações. “A Covid traz uma necessidade de resposta articulada, e essa é a grande capacidade do setor saúde no Brasil. Apesar das dificuldades, esse modelo de direção organizacional do sistema, com gestão tripartite, com definição de planos de ação e acompanhamento de gestão contribuiu muito para um primeiro nível de resposta que o sistema de saúde do Brasil conseguiu dar à pandemia”, observa Santini.

Fonte: CEE Fiocruz

Autora: Eliane Bardanachvili

EDITORIAS ORGANIZAÇÃO DO SISTEMA

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